«Fui para o Exército, em 10/1/1966, para o Curso de Sargentos Milicianos. O curso mais longo (8 meses), nessa época, porque era para formar Comandos.
Embarquei para Angola, no navio Vera Cruz, em Julho de 1967, rumo ao Norte de Angola, para um acampamento chamado Quiende, perto de São Salvador do Congo.
Aí, a dureza do clima (muito frio na época do cacimbo e quentíssimo na época do Verão) fez com que, à parte os perigos de uma guerra de guerrilha que enfrentávamos, a guerra fosse mais difícil de suportar.
A nossa função era patrulhar uma zona (que em superfície era superior à Guiné) a pé e de “Unimog” (carro de transporte militar).
Esta zona era uma zona de passagem de guerrilheiros e a nossa função era tentar interceptá-los. Por esse motivo, à nossa chegada, ouvia-se o som dos canhões, o que nos deixava com algum medo.

A 1700 era uma companhia independente, cuja missão era, além de patrulhar, também dar apoio aos camionistas que traziam os alimentos de Luanda e íamos buscar o correio de São Lavrador.
Esta companhia só esteve uma vez com a bandeira a meia haste, pela perda de 2 companheiros.
Foi uma guerra inútil, que me roubou a juventude e a milhares de portugueses e da qual não vale a pena falar, pois ninguém liga.
Só quem lá esteve é que sabe todo o sofrimento e toda a dor e pelo que passámos.
Foram 26 meses de sacrifício, longe da família e da civilização.
Regressávamos de noite, porque, na altura, havia boatos de que iam atacar as companhias que regressavam, tendo sido flagelados pelo caminho, mas sem mortes.
Regressei a Portugal, em 29 de Julho de 1969, curiosamente no mesmo barco, só que, desta vez, com alguns caixões.
Ao chegar ao Cais de Alcântara, no meio de milhares de pessoas, consegui reconhecer o meu pai …»
Deixou de relatar, por não querer recordar tanta tristeza e tanta perda de amigos. E acaba com lágrimas nos olhos, dizendo:
«Cheguei vivo e inteiro, mas nunca mais fui a mesma pessoa.»
Mariana Lisboa